todos os dias acorda e faz tudo igual.
repetição que confere aos atos segurança. criatividade demais talvez lhe faça esquecer das coisas,
o que dizer, onde apertar,
esquecer quem é.
o ruído distante em reverb. delay, phaser. flanger talvez. irreconhecível o ruído distante. se aproxima supersônico e cresce espacial e chega perto e tem certeza que será engolido ao abrir dos olhos, o som assassino e canibal
do despertador
desligar, desligar
levantar à força
querendo morrer
por três segundos
e meio
há contas atrasadas. há bocas a dar de comer, expectativas, ambições, sobrevivência
reclama o tempo e quando vem-lhe às mãos o tempo, estático vagaroso onipotente a subjugar homens e mulheres de bem
o tempo
o tempo não ensina nada.
repetimos os mesmos erros. projeções minhas no alheio. projeções do alheio em mim. eu e o resto do mundo apenas mitos, fantasias, imagens tão realistas e mundanas quanto fadas ou bezerros voadores unicórnios,
ela mera reprodução singela do que penso dela, não ela-mesma
e eu
apenas
aquilo que ela pensa ser meu nome
sentindo o peso dos adjetivos todos no mundo, passos trôpegos de criança ressonada em direção à cozinha. um copo d`água? algum suco com gosto de pó laboratorial processado em cor e cheiro e copyright? certamente cancerígeno. ou uísque. me dêem uísque de uma vez. make me dance da’ ole’ shaggy knees-down rock n roll big bang, babe
largou o copo, a torneira que abre devagar a água quente demais depois de menos e logo novamente quente
demais
mente insatisfeita, insaciável.
espírito jamais completo dos malditos fadados ao fracasso ao desespero angústia cega e bipolar, à solidão
adjetivos todos eles filhos pródigos de um perfeccionismo espiritual sem sobrenomes.
lembrou-se da amiga que lhe falara sobre a arte
conversa densa embora sutil, em nuances
períodos longos despontuados entorpecidos certamente proibidos pela santa igreja católica
uma música qualquer
impressionismo aqui
expressionismo ali
temos um conflito.
a torneira fechada agora o frio, o frio as roupas os sapatos ornamentos europeus de um poder imposto aos trópicos a camisa e seus botões estranhos nobres pseudo-elegantes
e
frios
lembrou-se da mulher, se machucaram na ladeira.
quer-lhe bem tão bem que já nem sabe mais o quanto pesa o bem-querer
lindo e recíproco
não sabe o que dizer
não quer sofrer, não quer que sofra
não faz minutos preferiu em silêncio abnegado toda a dor do mundo nos seus ombros
talvez se queiram mais que a si mesmos
e ainda assim
se machucaram na ladeira
love`s so strange.
pensou em ligar em lhe dizer palavras doces tatuar-lhe uma memória um pensamento um testemunho vivo de força e fé e aleluia-irmãos SOBREVIVA AMAR-LHE LOUCAMENTE EM 3 SEMANAS PERGUNTE-ME COMO paixão que fuma e bebe e lambe e cheira
e ainda assim
um vício bom
o tal do amor
não ligou.
cedo demais, deixe estar deixe dormir deixe ficar aqui o registro solitário auto-reflexo de um querer tão bem que dói.
(querer tão bem que ao som da sua voz singela e melodiosa e doce, é dor que passa.)
o café da manhã será um cigarro e cafeína. decidiu que dois cigarros soam bem melhor, parou surpreso ao ver brotar do meio das cinzas um isqueiro colorido, ouviu madonna e quis dizer ao mundo que é de mulher, é de mulher, aquela voz é de mulher e as mulheres são máquinas da mais pura e massiva emoção.
todas.
algumas não sabem.
algumas sabem, têm vergonha, escondem
outras ostentam, usam, atropelam
poucas, bem poucas, deixam rolar.
são estas as que dão seus nomes a furacões
que dançarinas caminham e falam e passos e gestos e inesperadas epifanias
são estas as mulheres que geram refrões.
- quando abrires vossa boca para falar, será que poderias soar um pouco fraca?
what it feels like for a girl
não sabe.
há uma mulher oprimida dentro de cada um de nós, todos nós
mas não sabe, na real, como é para uma moça neste mundo
sabe apenas que há atraso. vê o horário digital no despertador agora de ponta-cabeça sobre a mesa e sente apertar o colarinho à alma
o atraso será punido pelos chefes
a subversão será punida
o apego ao próprio tempo
à liberdade
à tolerância
o culto ao bem
ao belo
aos olhos ágeis a lhe decifrar lhe devorar os mais instintos segredos,
o apego a valores humanos e sentimentais de toda e qualquer ordem será punido com rigor.
que é hora deste pária marginal aprender de vez e cor e salteado
uma lição
(um sonho seu, somente seu. a lhe manter vivo.)
fechando a porta do carro pensou que era certo o mais errado.
voltou à casa
ao quarto
à cama
deitou-se de terno
tomou de volta às mãos a segunda-feira à força violentada e raptada
dormiu morrendo em um poema um sonho deitado na grama foi feliz idéia-fixa obsessão de um homem singular
tão livre a escolher prender-se em amarras nas grades da zona do boteco do distrito policial do hospício
e do altar