Yo

..são paulo

letras, insanidade, non-sense. poesia marginal. movimento slow. parques, grama. fotografias poéticas. adoração irrestrita (a quem merecê-la).

(scott weiland ainda é deus.)

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 Ellos y Ellas

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......11-06
......12-06
......02-07
......03-07

 

 

 

 

 

 

Domingo, Junho 24, 2007


minha alma dói
de cansaço, de choque, da ausência e do medo
da morte


exausto. até a última gota da existência, cicatrizes e hematomas (causados por mim mesmo)
a me lembrar que sou mortal


"és infinito", abrandaria minhas angústias.
mas não o ser
me traz
segundos a menos
de paz
e
suspiros
a mais

e um remédio pouco faz além de drogar a consciência.



nesta manhã, não vou abordar mais nada além do vazio em meu peito.
não que se limite a minha vida a isto
muito pelo contrário
(vida não se limita, não a minha)
o fato é que, visto que vasta a figura de linguagem, me permito a metonímia: hoje sou todo eu a parte que dói que lateja e que chora em silêncio e a seco
(hoje) a poesia
neoconcretista e ultrapassada
não levanta da cama
os problemas terrenos, terráqueos, o salário, os semáforos, as sirenes, a augusta, o pó, a vanguarda artístico-gaúcha
não levantam da cama



amanhã
amanhã é segunda-feira
e este é um prólogo inconclusivo.


(a dor é negra, a cura é púrpura. de um fluorescente e violeta radiar.)

rafael 12:08pm


blow it



 

Quinta-feira, Junho 14, 2007


querido paco



pensei que lhe devia um escrito
apesar de tudo
eu nunca soube o que dizer.
eu não sabia que não mentias
eu não sabia dos segredos em dona cláudia
ou da hipoteca
eu não sabia do câncer de clarice
nem do caminho pra casa
nem da mancha envelhecida de café no estofado de circulares púrpura
o
sofá
eu não sabia de tudo. tantas coisas sonhadas
ressonadas
como melodias surdas, versos de cegos

se estou bem?
sim, certamente.
certo também, já estive melhor
do que
trancada em um
quarto
vazio
cercada de roupas usadas largadas nos cantos cinzeiros e copos manchados vermelho-orgasmo à minha boca um desenho borrado memórias-de-vendaval
ouvindo a mesma música, repetidas insanadas epifanias, vendo tevê sem volume
um telejornal
qualquer
bêbada do rum sem graça que levei da Americanas
o sanduíche é o mesmo de ontem.
fumo cigarros mortos e leio poemas neo-modernistas démodé,
à forma do que foram anos bons de ingênua e pura subversão
só lhe trago barbáries.

tentar contornar a verdade é sempre um desafio imenso.
obstacularizar a mensagem em rodeios em descurvas trensconversas cento e treze mil desníveis topográfico-sentimentais
(talvez ainda mais difícil do que sorrir com vontade)

a verdade é que ainda te quero.
não, não.
a verdade é que eu nunca te quis
como eu quero.


não posso dormir pois dormindo eu não fumo eu não bebo eu não ouço brendon flowers a entreter e me afastar em sua voz do espírito perdido e mal amado, assim eu mesma a me tornar a cada instante a cada dia a cada silenciosa mágoa tragada e segurada em meu peito um rabisco um desenho um corte errado de papel
a sinfonia nona scalleta que não canta e nada faz no coração de quem se presta a ouvi-la,
a sinfonia
e a culpa
a culpa é SUA
culpas existem para atraírem sujeitos
e você sabe, eu predicado.



a minha boca é delicada e salgada
e
dissimulada
, você disse
eu vou jogar a carta fora.
até porque
dez anos passam
rápido demais,
rápido
demais

não vou jogar a carta fora.



o menino está bem. escreve o nome, traz desenhos da escola. violão bola astronautas professora estrelas lua cachoeira. me pergunta sobre química deus orgasmo drogas roquenrou futuro e concepção. eu respondo. tudo. quis saber do pai, morreu na guerra
- qual guerra?
( - a minha.)
se chama paulo henrique. filho.
homenagem ao avô
(seu pai o único a apertar-me a mão naquela casa enorme e fria)




já te disse que não sabia de clarice?






me pergunto o que terias feito se eu houvesse lhe seguido.

querido.




eu te amo.
mas eu me amo. demais pra amar alguém tão bom.



sofia


rafael 09:27pm


blow it

 

Domingo, Junho 03, 2007



escrevo coisas chatas quando me sinto doente ou vazio.


coisas grandes
críticas
desconexas
radicais
desinteressantes.


e não, não estou para lançar um livro
ou um disco
uma exposição super cult


eu sou chato 90% do tempo.
esquema velho alzheimer.




e não estou preocupado.


rafael 10:47pm


blow it

 

Sábado, Junho 02, 2007


prefiro a baderna



eu não sou ninguém, nada.
mas deixo claro o meu apoio aos estudantes da USP que ocupam neste momento a reitoria da Universidade.



todos sabemos bem do contexto: fragilização das instituições públicas em nome da manipulação pelo capital; manutenção ilegal do desinteresse do governo no fornecimento da educação de alto nível que lhe obriga a Constituição Federal:

fonte


Art. 205 - A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.


a reivindicação: suspensão e anulação de decretos do poder Executivo os quais, na visão dos estudantes, reduzem a autonomia da Universidade de São Paulo, e agravam ainda mais o problema da obsolescência do ensino.

fonte


mais algumas palavras constitucionais seletas:

Art. 206 - O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
(...)
VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei;
VII - garantia de padrão de qualidade.



Art. 207 - As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
(...)


Art. 208 - O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:
(...)

§ 1º - O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo.
§ 2º - O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente.

(...)





alguns conceitos:

- quem define regras e valores a fim de estabelecer leis, sendo certo que a Constituição Federal de um país (à parte discussões doutrinárias técnicas e aqui inoportunas) se trata de uma lei maior que todas as outras, é o Poder Legislativo. é este o fundamento da democracia representativa em sua mais bela e florida teoria: o povo escolhe os representantes, os representantes escolhem as leis, logo o povo escolhe as leis

- quem promulga decretos, a fim unicamente de dar cumprimento aos textos legais, é o Poder Executivo - Presidente, Governadores, Prefeitos.

Exemplo hipotético: a lei W define que a carga horária de um professor não passará de 8 horas diárias; uma Universidade Y precisa de professores em dois turnos; compete ao governador do estado da Universidade Y, por meio de decreto, sempre dentro dos limites da lei W, definir o horário de início e término de cada turno, algo que a lei não fez por ser específico e sujeito a peculiaridades regionais, pessoais etc.


os fatos: há anos a educação pública passou de privilégio da classe média alta instruída à última opção das classes média baixa e pobre. o governo jamais levou a sério a indicação da Constituição, porque vivemos no Brasil. neste país, partimos do princípio de que as coisas não vão dar certo.

alguém determina que o governo faça 10, o governo alega que 10 "está fora das realidades financeiras e gestacionais do orçamento do Estado", e o povo se contenta com 9.

8

7

6

blow up countdown?


estas pessoas que agora dormem numa reitoria fria cercada por pneus estão lutando pela manutenção do 2.
do mínimo
do ridículo, irrisório


e o governador do estado jamais poderia ultrapassar os limites da constituição federal por meio de decreto.
se a lei determinou autonomia administrativa, não me venha com antagonismos. ainda mais por meio de eufemismos técnicos, secretariais.
você não precisa estudar 5 anos de direito para entender isto, é tão simples.


nosso governador de estado é o sr. josé serra.


não vou gastar palavras com josé serra. afirmo apenas, com convicção, que à parte o passado de suposta luta estudantil e exílio por suposta perseguição da ditadura, o indivíduo se deixou levar pelo capital.


assim como o partido que defende, assim como a teoria neoliberal que o nutre.


a irresponsabilidade do Estado e conseqüente terceirização das obrigações fundamentais torna-se regra no contexto de josé serra.


mais ainda: a fragmentação torna-se regra.
porque, já dizia napoleão, um inimigo dividido é um inimigo fraco.


os neoliberais, e a classe dominante brasileira como um todo, estão acostumados e felizes com a fragilidade de seu povo, com sua silente aceitação e submissão a mandos e desmandos de toda ordem, com o efeito-lobotomia de copas do mundo e novelas das oito

porque "o povo brasileiro é um povo pacífico....."


nas palavras da revista Veja São Paulo (edição burguesa alienada de 27maio07), o que estes estudantes fazem é "baderna"

baderna é o termo de que covardes se utilizam para defender a manutenção de um status quo injusto.


a realidade é simples: ainda que não viessem escritas tais premissas em nossa Constituição, ainda assim seria o caso de nos questionarmos, a par da legalidade, se o que queremos para nós, nosso país, nossos filhos, é um Estado ausente, irresponsável, fraco. se o que queremos é uma situação na qual aqueles que nascem em berço estudam em colégios particulares, fazem cursinhos e passam nas melhores e mais caras vagas, enquanto os frutos de periferias, favelas, rodovias, estes que se fodam, estudem em universidades públicas obsoletas e fragilizadas, ou sequer estudem.

de se questionar também se o que queremos para nosso país e nossas vidas é a generalização da manifestação reivindicatória como nada mais do que BADERNA, ou se o que queremos é a defesa dos preceitos mais básicos e ricos da democracia participativa a partir da regulamentação e tolerância da reclamação, do contraditório, da ação


o que a revista veja, o josé serra, os burgueses capitalistas e os banqueiros e as senhoras da TFP desejam é que a revolta estudantil seja educada, limpa, ordeira.
desejam que o povo se manifeste como vacas.
que se pronunciem os descontentes como em um chá da tarde inglês


porque para eles, a questão não é fundamental, crucial.
crucial é a manutenção da situação vigente.
estas pessoas podem pagar escolas particulares. seus filhos estudarão nos melhores colégios, nas melhores faculdades, terão acesso aos melhores empregos
não é a palavra da justiça
é a palavra de no máximo 8% da população de um país miserável e ignorantemente, irracionalmente não-hostil.


e foda-se!
a massa é a massa.


para eles, a questão do ensino público não é importante.



para mim, poderia não o ser, igualmente.
estudei em colégios particulares, fiz cursinho, passei numa universidade particular, conheço a língua inglesa, tive acesso à cultura porque meus pais resolveram entregar 30 anos de suas vidas ao labor, e porque tiveram sorte.

acontece que discordo.


e mais do que isso: discorda a Constituição Federal.

a lei maior

a que estão submissos os padres
os capitalistas
os burgueses de toda espécie
os marginais maltrapilhos assassinos do PCC
os marginais fardados assassinos das polícias militar e civil
os neoliberais
os comunistas
o sr. josé serra
os estudantes.





o direito ao ensino público é inquestionável.

o direito à manifestação pública de discordância só é questionável quando se priorizam outros valores. valores, na minha humilde opinião, associados ao conformismo, ao reacionário, à manutenção de injustiças.

simples como o sol nascer e a poesia viver acima de toda e qualquer atrocidade: não há preceitos mais caros do que aqueles que sustentam a tomada de decisões de um país por parte do seu povo.


eu prefiro a baderna.



(e devo-lhes cobertores e água.)


rafael 06:51am


blow it