Yo

..são paulo

letras, insanidade, non-sense. poesia marginal. movimento slow. parques, grama. fotografias poéticas. adoração irrestrita (a quem merecê-la).

(scott weiland ainda é deus.)

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***

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Sexta-feira, Março 23, 2007


police-report prét-à-porter barceloneta
para Lise, colega de karma

joão se levantou cedo. mais que o de costume.
ainda sem o som dos ônibus a cortarem velozes o elevado (ali a poucos degradantes e sonoros metros da janela esquecida no fundo do minúsculo quarto e cozinha papel-parede verde-musgo)
presumiu ter tempo suficiente para um banho
demorado
atento
(muito mais que o de costume)
tudo em seus mais frios detalhes - neste dia em cada uma das inertes e prosaicas cotidianices certamente o poder de alterar a ordem do mundo das coisas da vida! de tudo - as roupas no chão dedo ao interruptor molhado um fiapo de luz no forro aberto do banheiro isqueiro e baseado à mente recém desperta a água fria escorrendo entre as mãos e o sabonete azul com cheiro de casa-de-avó-pequena-infância terna a memória, o feeling-good...

joão descobriu o amor.
sopro suave e puro que lhe chama um delicado sussurrar,
luzia

- luzia...

hoje é terça-feira e não vai pra oficina. doença que de tão misteriosa assim desabrochou com atestado médico e tudo!,

- seu Nogueira, amanhã não venho. motivo de doença
- se passar pra mais de quarta já se nem preocupa em se curar
- sim senhor Nogueira
- porque você sabe que eu não posso de deixar de, entende, no que se refere a nível da firma
- sim senhor Nogueira

não importa.
o chefe não importa
a conta de luz do mês anterior largada à beira do colchão
a prestação de rádio-relógio e geladeira atrasada
não importam
absurdo o grito dos coletivos estuprando o silêncio do elevado em meio à madrugada abortada pelos primeiros metropolitanos poluídos raios de sol
nada importa,
joão ama.

e hoje é dia de luzia, dia de apertar luzia e de fugir lhe dar seu nome um teto um filho
e um bom punhado de beijos dos bem molhados ...
em luzia..
ele se veste e brinda o melhor dos perfumes, o mais caro, o nome em dourado francês errado
- franceses são os outros
que luzia é espanhola, a família é espanhola. (claro. que luzia é nacional)


mora no centro e a pensão pela porta de trás dá bem no ponto não demora chega o B3705Jabaquara que a essa hora é só motorista e cobrador descendo a ladeira na conversa o futebol quem perdeu quem ganhou quem roubou quem se deu bem, - há! eu já sabia,
o senão de joão é a tal da encomenda
questão mal resolvida.

não havia inteiro ainda um mês do lance na espraiada
transtornado o episódio
um .38 que lhe caíra em mãos deus sabe como, a troca pela farta cota de fumo na ladeira da quadra de tênis e três mil os reais na venda pros malucos da zona norte
tudo como o eventual
habitual
não fosse se a porra da arma de um polícia - desses bem aiatolás, xiitas, pensou, um doidão de um denarc que caiu a casa dos malucos na ladeira e junto na ponta da mira agora resta como um grande e colorido alvo a cabeça de joão
- dez mil contos até noite de sexta ou seu peito cheio de bala, nóia de merda

- dane-se que coxinha ao telefone não assusta, pensou

(mas dormir é sempre um desafio imenso)

tudo assim muito irônico. o tempo das coisas e o jeito de brincar com elas, digo. mas não nos apressemos,

na gafieira de passados já três meses foi onde encontrara luzia.
prima distante de uma prostituta amiga com quem andara contrabandeando falso-afeto também ela vinda da cidadezinha com nome de santa no interior do paraná e de que tanto ouvira falar,
a moça com traços tão virgens, femininos, chama acesa e ao mesmo tempo calmos e sutis e dançarinos os movimentos e palavras
e os cabelos
longos
negros
e os olhos de luzia assim tão
verdes
e sua boca
lento e torpe o
s
o
l
e
t
r
a
r

inevitável epifania.

a lembrança de luzia e sua ainda quente ausência foram mais do que podia resistir o homem
passadas três ou quatro luas, tal qual branca uma doença, dominou-lhe o pensamento
fez-se outro o sol nascente de joão.
pôs à mente que devia trocar de vida
e o fez
mudou de casa, arrumou um emprego, largou a farinha, não mais dividir a pocilga e as vadias e a latinha com zoínho
- bom pra ele assim quem sabe toma rumo e larga a pedra
um cartão telefônico e mais um e mais outro e a promessa de luzia:

- assim passada a primavera, eu vou te ver amor...
- e teu pai?
- só vai saber pelo correio...
- e assim, assim é certo?
- é muito triste, mas que se há de fazer...
- se me diz..
- o amor é tão maior, joão, que isso. o meu.
- ...
- meu amor...

a viagem marcada, uma aldeia no litoral da Bahia, paz contemplação e sentimentos sem sinônimos água de côco
e nada de problemas mancos
ou fardas
surtadas
data marcada, alma marcada


se esqueceu porém de comunicar reviravolta à cambada. e aos polícias. em especial ao tal Osório, investigador filho da puta, o do revólver, que ouvira sei-de-quem que além do fumo trambicara o tal joão também uns não-sei-quantos mil reais cocainômanos da boca



um vento frio que corta a infante madrugada e ameaça destroncar a alma em cacos
mas só arrepia,
joão se ajeita na poltrona. situa-se no itinerário do coletivo e torna à calma
- que o plano agora é perfeito, assegurou-lhe em silêncio de espingardas seu bom-senso

e também porque pensara que esquecer, simplesmente ignorar, aniquilar do pensamento, fazer como se jamais houvesse existido sequer no instinto mais obscuro talvez pudesse trazer ao assunto a solução
mas não
problema esse um tal de cheio de senão, quiçá, talvez, um drama! ,

o filho da puta do Osório se encenou uma diligência. diz que meteu o pé na porta da pocilga e não quis saber da brisa do zoínho lastimável situação a do pobre capeta, não tomou conhecimento violência sem juízo sem porque, - que coitado não deve nem ter dado por si da gravidade da situação tamanha a nóia
13 tiros no zoínho
7 dentro
e a latinha ainda presa à mão esquerda do zoínho, agora rígida, que deus o tenha.
- coisa de novela, pensou

sempre tão fácil se perder no bem que há no mal,
apresento-lhes joão.
vinte e três os carnavais nos calcanhares e um deslize tenso
e a culpa, a culpa a culpa atende por diversos apelidos cognatos todos eles mais dissimulados uns que os outros,
todos eles
de ressaca
(como os olhos lá da outra lá, do machado)
como o pó..

- mas tudo bem que dá tempo.

o tempo é todo ele aquilo que você quiser que seja, ponderou assim filósofo o joão que lê romances e filosofia de metrô pouco antes de enrugar a testa e refletir o quanto pôde (cinco segundos), e uma sentença à sua própria e individual pessoa prolatar:

- que a idéia é resolver logo o esquema com o tal do perrengue assim logo de cara e dane-se a grana, é, que é pra dar tempo de pegar a flor maior na rodoviária, que luzia não é mulher de se fazer esperar, não é
não


deu sinal e desceu no quarteirão de trás onde dos postes só o da esquina ainda luzia
as sombras dos moleques como sempre sumindo quando se tem quase boa assim uma certeza do conchave
(pra surgirem logo após na vil surpresa do carteador que rouba e blefa)
adentrou o beco se esgueirando por entre os barracos e paredes sujas descimentadas decoradas por grafites e pretéritas inscrições eleitorais
a mão levada ao bolso trouxe o molho, em meio a crostas de ferrugem deslumbrou prateada antiga e reminiscente
uma chave
meteu-lha à fechadura do 178, rapidamente abriu-fechou a porta
como quem fugia
e a visão ainda tão fresca.

a geladeira branca cravada de balas, manchada do sangue agora amarelo-envelhecido do amigo
desligada e sem motor
- sorte que os bichos são burros que dá dó...
abaixou-se e abriu o fundo falso
uns tantos quilos de cocaína virgem que zoínho não conseguira passar pra frente
ou pra dentro

sobre a mesa o embrulho, colocou-se a preparar o trampo. mais um trampo. último trampo

- que esse lixo deve dar pra fome desses porcos sujos...coxinha filho da puta

última reflexão barata antes do grito do lado de fora do barraco que lhe fizera interromper o devaneio. na mão o antigo facão de cozinha, correu para o lado da porta a se proteger não sabia bem do que, a respiração cortada, um medo assim tão novo (dos que têm algo a perder) contaminando-lhe veias e artérias,
nada aconteceu.
porém o temor trouxe-lhe como uma película a compreensão exata da miséria em sua própria situação: furtando do colega que morrera às suas custas sem ao menos entender um ponto e vírgula, para tentar salvar a própria pele em pleno território indócil da espraiada,
mas não teve
não teve
não teve tempo para dedicar-se a remoer as problemáticas que o fizeram inserir escalas noo caminho a lhe guiar à rodoviária à musa à moça à dolce vita, ah...

embaixo do tapete
envelhecido
um telegrama
nunca vira um telegrama
- não com o meu nome..
um remetente e um rasgo torto e o som da tua voz que lê e canta e meiga e cheia de carinho vira e diz só coisas belas, de luzia!, é de luzia minha menina


"joão...querido.
caso-me esta noite.
motivos não tenho.
amo-te hoje
como ontem
como sempre sua
sua
sua
luzia"




a morte talvez menos vazia.

(decerto não tão miserável)




passou-se o tempo, e logo
mas não muito.
que o problema transmutou-se em
solução
(e o tempo sempre todo ele aquilo que dele queremos)
ilegal subversivo foragido procurado jurado de morte por polícias e traficas, joão caiu na vida
como nunca
como nunca




em fúria cega, num desses dias em que a mente abarrotada de padê não sabe nem se há sol ou lua pasmando e mastigando o ódio por ainda fugir de civis corruptos que o perseguiam atrás de malditas das notas que jamais existiram
sem saber o que fazer, menos ainda porque faze-lo
meteu-se a descarregar a semi-automática recém furtada na casinha dos coxinhas próxima à estação da luz
correu
correu
correu joão
mas nem correu assim tão rápido..


em verdade, chegou a caminhar. apreciou aproximarem-se os algozes
que lutar à própria vida requer, digamos, um mínimo ânimus vivendis
em latim, tanto dá
tanto deu

em fim de vida
mais um tiro
e mais um
tiro
e mais
um
tiro
uma vitória da eficiente máquina de segurança pública governamental

- morto no começo da manhã em frente à Estação da Luz um criminoso que disparara diversas vezes contra o posto policial próximo. o homem, ainda não identificado, portava passagens de ônibus datadas de meses atrás com destino a Pirambi-BA. segundo os investigadores, se trata de um integrante das facções criminosas responsáveis pelos recentes ataques a policiais em toda a cidade


uma estatística.



balas que lesaram corpo, no passado a alma em rombos
que expliquem como bem entenderem os filósofos-de-plantão
(que de explicações morreu seu deus nas mãos dos homens a encontrar vida no amor)


o inferno é um poço de pureza confrontado à cruel inconstância da alma humana.

rafael 04:07am


blow it