se eu fosse uma mulher
eu seria uma jezebel
junkie
cabelos negros e longos
vestidos rojos a cair como papel
sobre
um par de ombros cor-de-mel
e junkie.
eu dançaria e mataria
eu mataria em um olhar...
(ou em vários)
conforme o som a dança o cheiro em meu prazer decadentista
uma verdadeira jezebel
ou prostituta.
junkie.
porque eu talvez já tenha sido uma prostituta viciada. assim disseram os orixás.
e os pais de santo também,
também a própria, a própria
A PRÓPRIA!
a vir me contar quem eu fui....como quem reza inédito pai-nosso
como a assombração esquizofrênica atemporal a assustar mais que a crianças.
eu seria a prostituta glamourosa a zombar do teu carro chique
do teu relógio chique
dos teus trejeitos tão
chiques
e da tua música alta
a sufocar essa vergonha que te mata em entre-abertos vidros e sorrisos pela metade...
- playboy punheteiro de merda.
te ensinaria a gozar
se me pagasse
e não teria filhos.
que ser mulher não se trata de possuir ovários.
e
digamos que
irresponsabilidade tem limites.
quero ter filhos porque sou homem; minha mulher minha moça minha menina minha pequena em vestidos brancos nos meus braços na mais falsa porém cega segurança do varão que pode tudo e tudo pode, tudo pode,
- eu daria a minha vida por você.
porém não tenho filhos
não há você qualquer você
não há ninguém a quem presentear com as pobres flores do farol
a não ser minha mãe.
e fosse eu mulher, tome por certo
jamais seria minha mãe.
heroína maior da paciência niilista...
a evitar o inevitável.
eu te daria o meu pior dentro do mais belo sorriso
eu morreria cedo e mataria logo
e assinaria
um nome
russo
qualquer.
meus amigos estão todos deprimidos
quase não há mais fantasticismos quase não há. quase não hei.
quando pequeno a avó lhe dissera que era preciso comer e estudar
pra vingar na vida
- já não é assim tão garantia.
meus amigos estão escondidos em cobertores
escondendo de si mesmos as memórias
de lembranças
e
reminiscências
quaisquer
que remetam ao sonho,
o sonho acabou.
meus amigos estão sozinhos
sempre melhor estar perdido solo do que em meio à multidão...
tão exata a falsa sensação de que se sabe aonde está que acreditamos.
eu também não vejo graça
nesses dias cinzas e velhos
e pessoas cinzas
e velhas
a verdade é que, como lhe dissera ainda ontem o irmão,
a vontade de procurar acaba baixando..
se fica claro que a procura é bem mais tenra e terna que o encontro.
viciados em procura.
grande metáfora.
em cada trago em cada um dos meus cigarros abençôo o fim do mito: não há nada no fim do túnel, há apenas o fim do túnel.