nada disso

nem daquilo

...

simples assim,

eu falo

sozinho.

Yo

Rafael Gregorio
23 anos
São Paulo - Brasil

letras, insanidade, non-sense. poesia marginal. movimento slow. parques, grama. fotografias poéticas. adoração irrestrita (a quem merecê-la).

(scott weiland ainda é deus.)

e-mail

 Ellos y Ellas

* camiss soveral - kitsch cat
* charlene cabral
* dani bluez
* dani bluez enlouquecida
* émerson ilha
* fábio staropoli
* julia medrado
* lissa - pro inferno_____
* maldita mulher
* marla singer
* marmota míope
* menina lexotan fotógrafa
* mictórios
* pausa para o glamour
* pórtia - 2 cool queenie
* rafaelle - nada demais

  las cosas rotas
(no se vuelvem)

* el pasado
* el pasado aún que más lejos

 

 

 

 

 

 

Terça-feira, Agosto 30, 2005

não há nada pior nesse mundo do que ser acordado pela dor
isso é fato.


óbvio, certíssimo como 1+1 ser dois e meio que a causa disso tudo
são
meus
estudos,
certamente que sim.


eu sempre soube que estudar faz mal. agora quero saber se minha monografia se importa com sua cria, a úlcera dos infernos, ou se vai ser apenas mais uma
dor bastarda
nessa vida de meu deus
.

#

quanto a ela

bem vejamos:

digamos que você tenha uma arma israelense em casa. proibida, um fuzil, uma metralhadora automática, só o exército pode ter um brinquedo desses
ou, melhor ainda,
você tem uma pistola semi-automática em casa. dessas bem comuns e simplezinhas, uma taurus .38 de merda qualquer, que você ganhou daquele playboy ridículo que te devia uma grana no pó e arrumou uma dessas herdada do zézinho da biqueira que se fodeu e foi pra casinha, vai ficar lá por um tempo, a arma dele rasparam o número e caiu na tua mão

é crime. sim, claro que é. Estatuto do Desarmamento e tudo o mais. penas altíssimas!

aí você surta, despiroca pra sempre e resolve matar alguém com essa merda estúpida

e deixa de ser crime.
você vai ser julgado apenas pelo "matar alguém", o tempo todo que você esteve com essa arma na mão, esperando a situação explodir como uma bomba-relógio, esperando a óbvia potencialidade assassina daquilo estourar e foder a vida de alguém, isso tudo desaparece, não existe pro Juiz

é o mesmo que dirigir bêbado, débil mental, retardado pra sempre, atropelar alguém e ser julgado apenas pelo atropelar alguém.


toda uma baboseira pseudo-intelectual-libertária construída por pessoas, e nem sequer pelas leis das pessoas, uma dessas ferramentazinhas que advogadosque escrevem sobre o Direito deixaram alí, de lado, pra ajudarem a advogados...
um raciocínio antiquado contra o qual minha monografia pretende se insurgir

(porque se é pra fazer, faz bem feito.
e, ok,
porque eu não saberia não causar...
eu quero mais é que leiam essa merda e se irritem e que eu seja jubilado, aniquilado, espremido de uma vez como uma espinha pra fora do mundo jurídico. é TUDO o que eu quero.)

e não que seja a solução pro mundo, claro.....
de boas intenções, já dizia vó preta, está cheio o inferno,
claro que sendo processados por mais crimes, os presos ficarão presos por mais tempo
inchando o sistema prisional
levando mais e mais tempo para retornarem à sociedade,
reintegrados

mas isso definitivamente não é problema meu.
(e eu já estou sem dormir)


#

morfina.

eu queria morfina.

eu não tenho morfina.

você tem morfina?

eu compro. eu pago. te dou minha alma!, tá limpa.......

apesar de tudo.....

minha alma por morfina.

postado por: Rafael Gregorio 04:10 AM



blow me





 

Domingo, Agosto 21, 2005

ela acorda
e ignora,
displicente...
o sol entrando sem bater pela janela
aberta
ela cabelos ressonados
ela figura tão linda em paz dos sonhos tão sonhados
re-sonhados
e sonhados novamente.
,
ela desperta
e se levanta
e se levanta, é pra não voltar nunca mais
(tudo há de ser feito assim, pra nunca mais voltar atrás.)
a música vindo do quarto
ela quem canta?
não
ela quem exala
a música mais cara, a que não pára, a que não pára de tocar.
sua vida é sua
mas o resto do mundo inteiro
você deu pra ela
envolto em laços
isso é fato.
ela matou o papa?
ela explodiu crianças famintas no Congo?
ela atropelou Madre Teresa (depois deu ré, pra ter certeza)?
ela financiou bombas no metro?
ela escondeu Osama em casa?

- que lindo...que linda.......

ela mentiu, disse "pra sempre" e assim, sumiu?
ela trocou tuas mãos por outras...?
e tua boca, por outra
?

- ...



ela é uma farsa?




não existe, um holograma, uma alucinação psicopata esquizofrênica
ilusão
pedaço teu,
teu!!!
transfigurado em 'moça',
ilusão..
ela, uma farsa...?










ele acorda.
(e ignora
intransigente...)

postado por: Rafael Gregorio 10:00 AM



blow me


 

Quarta-feira, Agosto 17, 2005


review - shangri la dee da (stone temple pilots)
2001 - atlantic records




trata-se do último disco da banda, a despedida.
a evolução musical estampada em cada acorde, o entrosamento vazando pelo rádio enquanto se entra em uma viagem,

este disco é uma viagem.
não pode ser compreendido de outra forma.

não é o meu favorito dentre os cinco da banda - sem contar a coletânea 'póstuma' - , mas certamente é o que mais me faz sentir. e sofrer. e sorrir. sempre bom, arte que machuca ou te faz gozar, o tipo de álbum que se ouve mais de uma vez seguida no fone de ouvido antes de dormir.

a banda se juntou, mais uma vez na companhia do produtor brendan o'brien, mudando-se com seus equipamentos e roadies e familiares para uma mansão na califórnia, repetindo a fórmula experimentada à época de 'tiny music...' . a idéia era - pela primeira vez - se utilizar das vantagens e comodidades do pro tools (famoso software de gravação digital usado, quase sempre, como instrumento à ocultação de falta de talento em artistas 'modernos') de forma a se permitir uma produção artística mais abrangente e distinta dos campos até então já abordados. marca registrada desta banda incrível porém subvalorizada: diversificação. sons pesados, extremamente agressivos, alternados com baladas arrepiantemente mórbidas e cheias de ironia, niilismo, sarcasmo sexual, arrependimento ou simplesmente amor.

scott weiland - não obstante ter, à época da gravação, se deixado recair em sua recuperação heróica contra o vício por heroína e cocaína - o que fodeu de vez as relações pessoais internas na banda - , o vocalista entrega, aqui, o seu mais relevante legado. vozes perfeitas, timbres inéditos, criatividade explícita. são os dois últimos discos do STP aqueles no qual weiland apresentou ao mundo coisas realmente novas e autênticas - até então, jamais sem perder em genialidade, pode-se dizer que scott mais reunia e misturava influências do que efetivamente inaugurava em cores e cheiros. shangri la é seu testamento. é uma aula pra qualquer um que ouse cantar. especialmente em hello it's late, o som mais amores-reais do mundo que você jamais cantaria à sua mulher a não ser que tivesse muita, mas muita bola-no-saco, bi-polar bear, confissão sincera-até-demais do doente consciente e convicto, e hollywood bitch, agressividade putaria drogas dor ilusão sofrimento epifania - a música resume o artista.

dean de leo fenomenal, abstrato, consciente do próprio espaço na banda, não só enquanto compositor, recheia o disco com timbres expressionistas, usa os recursos digitais como poucos guitarristas o fazem, se é que algum outro o faz, ou seja, sem perder em alma, sempre com bom gosto de equipamento e incrível senso de oportunidade. nada como dobrar guitarras pesadas como o inferno e mixá-las em estéreo. nada como acompanhar as pirações do teu vocalista por meio de cordas....

robert de leo, o gênio musical obscuro do STP, põe pra fora seu lado menos-anos-70 pela primeira vez e, bizarro, mostra-se tocado pela bossa nova, especialmente tom jobim. o resultado é surpreendentemente bom para uma banda de rock n roll setentista (não, STP não é e nunca foi grunge. isso são rótulos desenvolvidos e adotados por débeis mentais). harmonias agressivas, até mais relevantes do que o próprio baixo de robert ao longo do disco.

erik kretz é erik kretz. condução impecável. o homem pensa a bateria enquanto um conjunto de pequenos detalhes, coisa atualmente rara, posso visualizá-lo selecionando canais numa mesa de som pra ouvir cada uma das partes do kit-do-inferno de cada vez. ninguém conduz como kretz. igualmente dotado de senso de oportunidade e - sim, ele é baterista - sensibilidade harmônica e lírica. mais do que em qualquer outro disco da banda, a bateria de shangri la acompanha impecavelmente as variações harmônicas dos de leo e as sofreguidões de timbre e letra de scott.

o resultado é formidável. assim:

1 - dumb love - soco no estômago, pancada na testa, relato sincero de uma recaída inevitável
2 - days of the week - a música pop dos anos 60/70 pode, sim, ser boa pra caralho
3 - coma - aprenda a usar o pro tools de forma artística, e não destrutiva-da-arte. sim, aquele barulhinho na introdução é uma voz.
4 - hollywood bitch - algo como grand funk railroad tendo um filho com o cheap trick, e a criança sendo dada aos braços de david bowie, seu tutor. algo assim.
5 - wonderful - a balada mais linda da década. e a década mal havia começado, mas é fato, a mais linda, venha o que vier.
6 - black again - 'ela é bipolar porém a amo, ela está sofrendo mas eu não largo, não largo...'. diga isso em notas musicais e terás black again, o disco muda a rota...violões passam a tomar conta, o pensamento viaja, essa é a hora em que você pára de batucar os pés no chão e passa a dançar-sentado, pensando na vida e sentindo doer o prazer de estar vivo
7 - hello it's late - "nada importa, eu não pensei que fôssemos durar tanto...mas estou apenas sentado nesse carrossel, e a música está alta demais...é só um jogo que costumávamos jogar, não pensei que fôssemos levar até o final, isso me mata porque não pode ser apagado...estamos casados." você pode entender que isso é amor? de verdade? então está pronto para o melhor vocal da carreira de scott weiland.
8 - too cool quenie - a letra foi supostamente inspirada em courtney love. que é amiga de weiland. ainda assim, trata-se de uma crítica. um questionamento sem julgamentos, típico de alguém que foi crucificado e manteve-se consciente ao longo da penitência. novamente o pro tools usado de forma linda, a percussão filtrada em efeitos insanos criando um clima de inevitável déja vu no início do som.
9 - regeneration - algo como meter o dedo de um sonâmbulo na tomada, os fios descascados, o chão molhado...você acorda da viagem, acorda e percebe que a banda está causando! sim, foi tudo gravado de uma vez, não há mais do que uma guitarra base um baixo e uma bateria criando aquela barulheira infernal que te fez pensar que cientistas da nasa tomaram ácido e aprenderam a tocar instrumentos - "to the fields where lessen mice go, to the fields where men follow" é o provérbio da cultura antiga americana/protestante que weiland repete no bridge como um psicopata
10 - bi-polar bear - tiram o seu dedo da tomada e você está semi-inconsciente, o momento certo para ouvir uma confissão difícil e calejada: eu sou viciado em drogas porque fui fraco, eu sou maníaco depressivo, eu tomo medicamentos pra me controlar e café como um doente pra não dirigir até a boca e me afundar, me afundar....não vou me afundar........há que se manter alerta, sempre alerta, cada minuto cada curva, "não durma no volante no sinal, não durma no volante enquanto dirige pra casa...", scott weiland é deus.
11 - transmissions from a lonely room - balada semi-elétrica psicodélica, led zeppelin se alguém mais escrevesse além de jimmy page, telecasters ligadas em marshalls e vocais dobrados, nesse momento você gostaria de estar deitado na grama, você pensa que tudo vai acabar bem. você sente que vai. apesar do caos.
12 - song for sleeping - eu tenho um filho e eu o amo. vou escrever um som pra ele. "canção de ninar" é a tradução do título, e a letra se destaca, porque é linda. a harmonia também, cheia de dissonâncias alienígenas ao rock n roll, algo como uma balada hippie do começo dos anos 70 porém evoluída, toques de bossa no bridge, a guitarra sendo tocada em pedacinhos, pequenas frases isoladas sobrepostas umas às outras formando um todo. a música termina e os vocais dobrados desaparecem, sobra apenas um, você pensa que vai chorar, porque aquilo é lindo, lindo!, você quase chora.............
13 - long way home - mas não. você não chora. você se lembra da bad trip, a bad trip te persegue, você vendeu a sua alma, vieram te cobrar, sempre vêm, sempre vêm, filhos da puta...guitarras dobradas novamente, em estéreo, amplificadores em chamas, certamente, tudo negro e pesado, gritos histéricos, "me diz! é mais da mesma? onde posso conseguir mais? me diz! ela está lutando por ar? de onde ela vem?", o som termina no solo, graças a deus um fade out, você não agüentaria mais que isso....


há que se ouvir este disco.

mesmo que seja pra não gostar.
eu não gosto de Velásquez, porém reconheço a sua arte.
faça o mesmo com shangri la dee da e seja feliz.


(se gostar, kazza: samba nova, heed the water whisper e about a fool são sons que acabaram sendo cortados do disco, mas foram gravados e escaparam na net. você pode encontrá-los aqui, também: http://www.belowempty.com . vais entender o que disse sobre tom jobim.)


postado por: Rafael Gregorio 9:20 PM



blow me

 

Segunda-feira, Agosto 15, 2005

George Jung * fala em meu nome em pausaparaoglamour

e o faz cercado de companhias incríveis!


basicamente o circo de horrores da fina flor apocalíptica literaturesca.



* esquizofrenia

(do Grego skhízein, fender + phrén, phrenós, espírito)

s. f.,
género de psicose;

cissão ou dissociação psíquica.



e no que concerne a Marte, uma nota:
- ré com sétima aumentada.
aquele de wave, do 'vou te contar'
a nota do tar
sabes?
vou te con
tar


sexo

(Del lat. sexus).
1. m. Condición orgánica, masculina o femenina, de los animales y las plantas.
2. m. Conjunto de seres pertenecientes a un mismo sexo. Sexo masculino, femenino.
3. m. Órganos sexuales.
4. m. Placer venéreo. Está obsesionado con el sexo.

~ débil.
1. m. Conjunto de las mujeres.

~ feo, o ~ fuerte.
1. m. Conjunto de los hombres.

bello ~.
1. m. sexo débil.



postado por: Rafael Gregorio 2:32 PM



blow me

 

Quinta-feira, Agosto 11, 2005


III
cruel é nascer mulher


bons, bons tempos.

tudo parecendo conspirar a seu favor, em prol da fina flor, a flor que pisa a ponta fina o salto alto em passos largos, passos discursivos...
passos que discursam em silêncio.

àquela época, ah! aquela época....àquela época as luzes os cheiros os carros, as filas nas portas das boates mais chiques e os espelhos todos empanturrados de cocaína,
ela era rainha.

a desfilar no lixo amargo e decadente como uma miragem, uma ilusão, um holograma, algo qualquer que não se toca, claro, claro que não se beija!, onde já se viu....
onde já se viu puta beijar na boca?
bons tempos.

Ramirez, maldito Ramirez, gordo escroto. colombiano filho da puta que nessa época não habitava sequer os pesadelos da rainha,
porque era assim, era assim. "a rainha",
quantos homens não se desesperaram? quantos não sugeriram um carro uma casa um milhão um refrão, um braço por uma noite com Gizela?

àquela época a profusão enxamesca na baixa Augusta não passava de pesadelo.
pesadelos....aquele bando de caipiras sardentas sem-sal recém-seqüestradas de algum bordel de beira de estrada, ou de alguma escola municipal do interior do estado, todas servindo a um colombiano viciado e porco, um verme!, se esfregando em meio-vidro em desespero a tentar arrastar pra dentro do inferninho algum babaca carente de gozo e moral e um pouco de maus costumes
tudo isso era matéria pra sonho ruim. noite mal dormida.

bons tempos..

mal dormida que estava, sequer percebeu o relembrar.

- lembrar do passado é pra quando me enterrarem,
é o que dizia.

o que pensava?

reinou absoluta durante semanas. meses. anos. longínquas seqüências infinitas de sextas e sábados a servir de imagem ideal ao sonho trash do glamour vendido à dúzia, glamour passado à carne...

ninguém entende de glamour como Gizela.

não, claro que não. claro que eu não vou trabalhar em boatezinha de merda nenhuma!, essas bostinhas não vão durar....não vão durar. e se durarem, quem se importa?!, eu que não vou pagar cafetão filho da puta com minhas tripas,

na rua fez história.
e fez ruína, inevitável ruína.
mais dia menos dia ia dar merda, ela sabia. se sabia.
nada tinha que fazer se metendo com os nigerianos da Av. Rio Branco, não falavam uma porra em português aquelas pragas que não fosse "farinha", "paranga", "déi real", perdidos e fodidos e tudo o mais, nada tinha que tratar com aquela escória.
mas era o único lugar onde ainda havia pedra fácil em plena três da tarde, aqueles buraquinhos quase que virtuais de tão negros e escondidos entre a Rio Branco e a Ipiranga.....cartão postal.....

quase riu.

- sempre em frente que o país é nosso e hoje o milagre é o meu!,
onze da noite as plumas todas em guarda a maquiagem pesada o exagero em cada milímetro do corpo, a Realeza ainda lá. ainda lá,
Gizela jamais foi vulgar.
extravagância em traços belos, o demais feito de menos
Gizela jamais seria vulgar..
chamou o elevador mas não houve resposta ao apertar o botão, esta merda está sempre quebrada, sempre, e o filho da puta do Ceará agora deu pra cobrar boquete pra fazer o serviço porque "o pastor tratô de dexá claro que tu é desqualificada, tu sabe? tu é mais marginal que matador e baitola, tu Madalena, tu sabe?",
pra não deixar de ser fiel ovelha no rebanho de Deus Pai, o zelador só trabalha com boquete.

desceu as escadas, são três os andares, não durou dois lances e o enjôo tomou conta. enjôo...não cheirei, não bebi, nem comi pra ter enjôo....
deve ser fome.

Ceará filho da puta, continuou a descida
desce até se achar no inferno, pra curtir o caminho de volta.
um playboy, um doutor, um marido brocha, um senhor magrelo com cara de padre que insistentemente pedia pra bater-lhe com força nas próprias nádegas e uma bicha querendo saber onde encontrar pó,

Gizela volta. deita, dorme,
a cama gira, acorda
cadê a porra do banheiro? a luz queimou,
a porra do banheiro....
enjôo, náuseas.

o espelho diz mas ela não quer ouvir. marlboro, eu tenho um marlboro no fundo da bolsa,
ela tem um cigarro, ela fuma. ela dorme.

acorda antes da hora, enjôo. náuseas. um vazio que sobe dos pés e leva as tripas pro meio da boca e depois volta e vai e volta e vai e
vômito
e o filho da puta do Ceará só vai arrumar a merda do chuveiro quando a bicha do pastor mandar....crente de merda, enjôo de merda, vida de merda!, vida de -

vida....

Gizela acorda.

(....)

viu na TV que fazia mal e parou de cheirar, e de beber, e de fumar - nos dias pares - ,
comprou um vestido folgado, seis números maior, um par de finas alças a desnudar-lhe em graça tímidos ombros delicados,
cor-de-rosa.

o gordo Ramirez, nunca mais, acordar cedo e dormir cedo, ir direto pra tapeçaria de Genilda, alma boa, de lá voltar às seis da tarde, dois pãezinhos e um pote de margarina.
e novela, novela e pijamas.
e carne com salada aos sábados. porque faz bem, faz bem pra ele. ou pra ela?

pra ela.....


- pra ela., disse o Doutor.
e a enfermeira fez que achou graça, um gesto tão efêmero que passaria despercebido, quase que um tique nervoso mas não, foi aquele estalar de insignificâncias a desarrumar a flácida estática da face o máximo que essa velha gorda e cansada e batida pôde dar em esforço à pobre, à esperançosa alma estendida em uma maca em um sorriso uma promessa,
virgem.
virgem em dar vida a pequenas gentes....
- virgem...

Gizela dorme. e sonha. nomes, cores, cheiros, toques...dorme.

(...)

arriada ao chão, a alma - se um dia a teve - em frangalhos, sentindo doer até os fios dos cabelos castanhos banhados em suor
Gizela chorou.
chorou moça, soluçou a absoluta falta de solução, "e o que eu vou fazer com isso??", pensou mirando debruçada sobre o vaso e a submersa mancha negro-avermelhada, e o horror da própria humanidade a fez parar de chorar.
em silêncio de azulejos quis morrer, quis morrer e desejando-lhe derreteu-se novamente em prantos e desespero, sempre fraca demais, compaixão demais, incapaz de pontofinalizar sua penitente existência vulgar mesmo que certa do fim, do podre, o inevitável e derradeiro fim-sem-pétalas-de-rosas

ainda viva.

"ainda viva...", e foi quando teve a visão,
trancada entre paredes estéreis e despedaçadas em ruínas mal coladas de azulejos inférteis inodoros e imparciais, enjaulada ao não-vingar do sonho que, pudera!, nem vingou pra ser sonhado, sonho agora exposto em massa disforme no vaso, viu Deus, viu Deus e perguntou, perguntou-lhe o porquê daquilo tudo, por que, por que, POR QUE MEU DEUS?!,
...
Deus é Ele.
é macho.
"sempre assim....você pergunta difícil olho no olho homem vacila."
disse. pensou em voz alta na verdade,
e a verdade é que foi este o último manifestar-se antes do puxar a descarga.









(existe sim algo de belo no conforto que há na dor a deslumbrar ladrões, viciados e putas)






foi este o dia mais feliz na vida de Gizela.

postado por: Rafael Gregorio 11:10 PM



blow me



 

Quarta-feira, Agosto 10, 2005


II
subversivos


- a ironia depende da inteligência do interlocutor.
disse o filósofo. barba longa e mal tingida a conferir-lhe um ar de, não sei,

- entre o ridículo e o profano. não achas?

falou a dona do boteco. do Coimbra, sim, que o Hóliude's já era e faz tempo, a uma hora dessas só Dona Rosália pra salvar as almas podres retirantes do centrão. portuguesa corpulenta, numa das mãos manchas de sangue e a machadinha do finado Pereira, preâmbulo da carne dura do bandejão do fim dos dias, na outra a conta do bar, a balançar como seus peitos

- como pode? tanta teta. numa só mulher, tanta teta

foi quase um grito. era pra ser um singelo sussurro discreto, mas a moça não sabe falar baixo, ainda mais depois do rabo-de-galo das 5h35,

- porra Gizela!, aí, na moral aí...olha o volume, tu tem que ser mais esperta aí, senaum o bicho pega, i se a murruga surta de pôr o preto no branco, tu vai tirá dinheiro daonde pra pagá aí a tetudona tuas milionaricisses no botequim? da bunda?!

- (...) foi de onde tirei essa merda q tu leva no pescoço não foi?

- ....

- então, Isinha? foi ou não foi? então se pá. vou tirar a grana da bunda, mas vou falar em voz alta, tá certo?!

a profusão de sotaques só perdeu pra de cheiros - cigarro lavanda cachaça buceta mal lavada e pachulim, mas o velho menino das barbas mal tingidas, a ele apenas lhe entretém. o que sempre melhor fez, afinal, quando de escândalos apócrifos sem destino ou pai ou mãe foi arrotar epifania em decassílabos:

- palavras ao leú. sem gosto, sem cheiro, sem nada a disfarçar o azedo em teu mel...a rima é fraca e a carapuça, a carapuça é um beijo na boca!,

- éééé, velho...vocábulosss sábiosss, não fosse o cego cismar em ver...

- pelo olho do cu? só se for. fala sério Isa...

(não fosse a porra do cego sonhar caolhices, Gizela seria até poema.)


malandragem encerrando expediente, mendigos acordando excrementizados, a noite caindo chapada pelos cantos do dia, e sabe-se lá porque, é sempre este o momento
em que ela se volta à lua
e ele,
à boca

- chamar de vício é um desrespeito, blasfêmia, valha-me o misericordioso senhor bom deus e as mais virgens carmelitas, um ultraje à beleza inata ao momento..percebe? vocês, vocês que ainda são flores meninas..., vocês hão de entender um dia...


(...)


- mas bom mesmo foi quando Richard apareceu toda ao contrário, purpurinolenta que só ela!, mancolejando ladeira abaixo atrás do bofe, sutiã pela metade calcinha numa mão na outra o salto, sabe? lôca. "tô loca, tô loca", daquele jeito dela, toda toda, "aí sensual, tu gemeu q nem cabritinho fez que ia gozá um tijolo i num encheu nem o remendo das minha ponte, aí! sai foooraí....viaaaaaadaaa!", hilário!!! hilário...
- tu sabe que ela num gosta q chame assim, Gi...
- me lixando. tem pinto ou não tem?
- .....
- perguntei responde, mulher...tem caralho ou não tem naquela porra?!
- aí Gi,
- pode mudar até pra lady di, não me pega....encher quadris, comprar peito, rebolar despelar enfiar a calcinha até as costelas fazer da bunda coração, não tem jeito não Isinha....Richard Enrique dos Santos e ponto. sinto cheiro de homem à distância.
- ...
- é que nem, que nem, praga. tumor, lepra, sabe? lepra? é uma chaga... ferida aberta cheia de pus, pior que perfume de mãe,
- ...
- homem é pior que perfume de mãe.
- ...tu é muito cruel....aí, nunca vi....tu áis vezess parece até que num leva sangue de gente nesse corpo, aí, cruel que nunca vi
- cruel é nascer mulher.
- ...
- ...acordar com treze anos sangrada até o joelho, existir pra ser fodida, ter valor no quanto enrolas descruzar tuas pernas...todo dia acordar e ver no espelho bem na testa, assim ó, bem no meio da tua testa, estampadão bem grande a tua função em pôr pra fora uma porra dum verme pro resto do mundo se divertir fodendo em desgraça....pode esconder o pau onde quiser,
- ...
- cruel é nascer mulher, Isadora.

(...)


subversão nossa de cada dia nos dai hoje,
a falta de sentido há de ser a única regra nesta terra sem lei a que chamamos vida

postado por: Rafael Gregorio 0:25 AM



blow me


 

Terça-feira, Agosto 09, 2005

I
freud & plumas


Gizela era uma boa menina.
boa aluna
boa filha
bom partido,
boa mãe
- cintura farta...dará uma boa mãe...case com ela!,
dissera a avó do noivo


jantar chique garçom elegante anel de rubi
o casamento, porém, tornou-se verso em canção jamais cantada.


e Gizela poderia lhe contar o porque dos olhos,
- de onde vêm estes teus olhos dest'azul'bsurdo, mulher?!
herdara do pai. certamente.

e dizia que Gizela saberia lhe contar de onde vieram os olhos,
mas nunca o olhar.

talvez de algum de seus ídolos,
scott? hilda? clarice, marylin, madre teresa?
ou talvez de certas coisas e momentos, o não lembrar memória drogada quando a idéia era GENIAL!, o sentir rodar achar ser enjôo porém não, apenas fome, a pele coçando quando ainda são 63 os reais a faltar pra completar mais uma dose...

Gizela pára. olha os próprios pés descalços e pensa que poderia ter guardado as sandálias...mas não, a pulseira de madrepérola certamente teria feito mais falta,
quando tudo isso começou? sabe-se lá.

talvez, talvez na primeira vez em que furtou dinheiro do pai. olhos azuis.
ou no primeiro sexo oral sem vontade
ou na primeira compra de paetês com o dinheiro do açougue
ou no primeiro banho em que, espuma nos cabelos, cigarro aceso entre os dentes,
entridentes sobraram-lhe palavras pra descrever o som da morte

porém lhe falta a poesia
afinal boa-menina....
falta-lhe a poesia pra pichar com sabedoria e divininspiração nas paredes do puteiro que
A DEGRADAÇÃO É A ÚNICA SALVAÇÃO
e que
JESUS MORREU ATEU
e que
NINGUÉM VAI TE SALVAR, PUTA DE MERDA, MAS DÓI MENOS PENSAR QUE ALGUM SANTO VAI TENTAR
,



o caminho dos bons de coração?
apenas um gemido ébrio cheirando cachaça popular:

- chupa, Giselda, chupa...
- é Gizela, porra. Gizela..
ela diz.

e com Z
puta que pariu,
Gizela...
- que há que se manter algum glamour nesta vida de meu deus!

postado por: Rafael Gregorio 0:05 AM



blow me


 

a partir de hoje

de forma caótica

porém

ordenada,


A Incrível Saga de Gizela
(a reinar em minha mente perturbada)


eu bem que tentei avisar os bons de coração,

- certifique-se de que teu serviço foi bem feito

mas não.

eles TINHAM que deixar aberta uma frestinha dos portões da lucidez psicopática.
tinham que.

uma frestinha ridícula, minúscula, insurgente contra a luz do coro dos contentes a cegar toda e qualquer abstração circuntríptica,
mas suficiente.

o suficiente pra guiar o pobre, a ingênua alma perdida em busca da negação do próprio karma
em passos largos
à
beira
do penhasco
do abismo
do abismo da loucura,

um passo a mais.........
um passo a mais, baby............e...........


(pra sempre, pra sempre, não voltou nunca mais, cada vez pior...)

postado por: Rafael Gregorio 0:00 PM



blow me